Espermograma: O Que o Exame Revela e Como Interpretar os Resultados

12th of April, 2026

O Que É o Espermograma?

O espermograma — também chamado de análise seminal ou seminograma — é o principal exame para avaliar a fertilidade masculina. Ele analisa as características físicas, químicas e microscópicas do sêmen, fornecendo um retrato detalhado da produção e qualidade dos espermatozoides.

É o primeiro exame solicitado na investigação de infertilidade de um casal. Simples de realizar, não invasivo e com resultado rápido, ele responde perguntas fundamentais: quantos espermatozoides estão sendo produzidos, se eles se movem bem, se têm a forma correta — e se há algo que precise ser investigado.

Contexto importante: a infertilidade afeta aproximadamente 15% dos casais no mundo, e o fator masculino é responsável por cerca de 40% dos casos. Isso desfaz um equívoco comum: a dificuldade para engravidar não é, na maioria das vezes, "problema só da mulher".

Como É Feita a Coleta?

O sêmen é coletado por masturbação, geralmente no próprio laboratório ou em recipiente estéril fornecido pela clínica. Algumas regras são essenciais para garantir a confiabilidade do resultado:

  • Abstinência sexual de 2 a 5 dias antes da coleta — nem menos, nem mais. Abstinência muito curta reduz a concentração; abstinência prolongada aumenta o volume, mas pode comprometer a motilidade

  • Evitar febre, doenças infecciosas ou uso de medicamentos nas semanas anteriores — essas condições afetam temporariamente a produção espermática

  • O laboratório realiza dois tipos de análise: macroscópica (características visíveis a olho nu, como volume e coloração) e microscópica (contagem, motilidade e morfologia)

Se um resultado vier alterado: antes de qualquer conclusão, o exame deve ser repetido pelo menos uma vez, com intervalo mínimo de 12 semanas. O espermatozoide leva cerca de 72 dias para ser produzido — uma gripe, período de estresse intenso ou temperatura elevada nas semanas anteriores pode alterar temporariamente o resultado sem indicar um problema estrutural.

Os Parâmetros do Espermograma: O Que Cada Um Significa

Os valores de referência utilizados são os estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), com a edição mais recente publicada em 2021.

Volume do Ejaculado

Referência: ≥ 1,5 mL

Mede a quantidade total de sêmen produzido em uma ejaculação. O sêmen é composto em sua maioria por secreções das glândulas acessórias (próstata e vesículas seminais) — não pelos espermatozoides em si.

Volume abaixo de 1,5 mL (hipospermia) pode indicar obstrução dos ductos ejaculadores, ausência congênita dos ductos deferentes ou comprometimento das vesículas seminais. Volume muito elevado também pode diluir os espermatozoides e reduzir a eficiência da fertilização.

Concentração de Espermatozoides

Referência: ≥ 15 milhões por mL

Conta quantos espermatozoides estão presentes em cada mililitro de sêmen. É um dos parâmetros mais relevantes para estimar o potencial de fertilidade.

Número total por ejaculado: ≥ 39 milhões (concentração × volume total).

Quando a concentração está abaixo de 15 milhões/mL, o resultado é classificado como oligozoospermia. Abaixo de 5 milhões/mL, fala-se em oligozoospermia grave. A ausência completa de espermatozoides no ejaculado é chamada de azoospermia — uma condição que requer investigação específica para determinar se é por falha na produção (causa secretora) ou por obstrução (causa obstrutiva).

Motilidade

Referência: ≥ 32% progressiva OU ≥ 40% total (progressiva + não progressiva)

A motilidade avalia a capacidade de movimento dos espermatozoides. Para chegar ao óvulo, o espermatozoide precisa percorrer as trompas uterinas — e para isso precisa se mover de forma eficiente.

Os espermatozoides são classificados em:

  • Progressivos rápidos (A): movem-se em linha reta, com velocidade

  • Progressivos lentos (B): movem-se para frente, mas lentamente

  • Não progressivos (C): movem-se, mas sem avançar (em círculos)

  • Imóveis (D): sem movimento

A referência da OMS considera a soma de A + B (motilidade progressiva) ≥ 32%, ou A + B + C (motilidade total) ≥ 40%.

Quando a motilidade progressiva está abaixo do esperado, o resultado é chamado de astenozoospermia — a alteração mais frequente no espermograma. Pode ser causada por varicocele, infecções genitais, fatores ambientais ou estilo de vida.

Morfologia (Critério de Kruger)

Referência: ≥ 4% de formas normais

A morfologia avalia a forma dos espermatozoides. Um espermatozoide normal tem cabeça oval, peça intermediária adequada e cauda sem alterações. A análise mais rigorosa e aceita atualmente é a morfologia estrita de Kruger, que mede as dimensões exatas de cada parte do espermatozoide.

Parece um critério baixo — e é. Apenas 4% de formas normais já é considerado dentro da faixa de referência. Isso reflete a realidade biológica: a maioria dos espermatozoides produzidos naturalmente apresenta alguma imperfeição morfológica.

Quando menos de 4% dos espermatozoides têm forma normal, o resultado é teratozoospermia. As causas mais comuns incluem varicocele, inflamações testiculares, exposição a toxinas e fatores genéticos.

Vitalidade

Referência: ≥ 58% de espermatozoides vivos

A vitalidade diferencia os espermatozoides imóveis entre vivos e mortos. Um espermatozoide pode estar imóvel e ainda assim estar vivo — e portanto ser viável para técnicas de reprodução assistida.

Quando menos de 58% dos espermatozoides estão vivos, o resultado é necrozoospermia — frequentemente associada a infecções genitais ou alterações estruturais dos espermatozoides.

pH

Referência: entre 7,2 e 8,0

O pH do sêmen é levemente básico — o que ajuda a neutralizar a acidez do ambiente vaginal e proteger os espermatozoides. pH alterado pode comprometer a sobrevivência dos espermatozoides e é investigado em conjunto com outros parâmetros.

Leucócitos

Referência: < 1 milhão por mL

Presença de leucócitos (glóbulos brancos) em quantidade acima de 1 milhão/mL é chamada de leucospermia e pode indicar infecção ou inflamação no trato genital masculino (prostatite, epididimite). Nesses casos, cultura seminal pode ser solicitada para identificar o agente infeccioso.

Tabela de Referência Rápida (OMS 2021)

Parâmetro

Valor de Referência

Volume

≥ 1,5 mL

Concentração

≥ 15 milhões/mL

Total por ejaculado

≥ 39 milhões

Motilidade progressiva (A+B)

≥ 32%

Motilidade total (A+B+C)

≥ 40%

Morfologia (Kruger)

≥ 4% formas normais

Vitalidade

≥ 58%

pH

7,2 – 8,0

Leucócitos

< 1 milhão/mL

A Terminologia: O Que os Nomes Técnicos Significam

Ao receber um espermograma alterado, o laudo pode conter nomenclaturas específicas. Veja o que cada uma significa:

Termo

O que significa

Normozoospermia

Todos os parâmetros dentro da referência

Oligozoospermia

Concentração < 15 milhões/mL

Astenozoospermia

Motilidade progressiva < 32%

Teratozoospermia

Morfologia normal < 4% (Kruger)

Azoospermia

Ausência completa de espermatozoides

Necrozoospermia

Vitalidade < 58%

Leucospermia

Leucócitos > 1 milhão/mL

OAT

Oligoastenoteratozoospermia — alteração nos três parâmetros simultaneamente

Múltiplas alterações no mesmo exame recebem nomenclaturas combinadas. Por exemplo: oligo + asteno + teratozoospermia = OAT syndrome, uma das formas mais comuns de comprometimento seminal.

O Espermograma Normal Garante a Fertilidade?

Não — e esse é um ponto frequentemente mal compreendido.

Os valores de referência da OMS não representam a concentração mínima para gravidez, nem a média populacional. Foram estabelecidos com base em amostras de homens que conseguiram engravidar suas parceiras em até 12 meses — portanto são um limiar estatístico, não uma garantia.

Isso significa duas coisas práticas:

  1. Um espermograma dentro da faixa normal não descarta fator masculino. Um homem com todos os parâmetros normais pode ainda assim ter dificuldade para engravidar — por fragmentação de DNA espermático elevada, por anticorpos antiespermatozoides ou por causas não detectadas no espermograma convencional.

  2. Um espermograma alterado não significa infertilidade absoluta. Homens com parâmetros fora da referência conseguem engravidar suas parceiras espontaneamente. A gravidade da alteração, a presença de outros fatores e o contexto do casal são determinantes.

A comprovação biológica de infertilidade masculina só é possível nos casos de azoospermia (ausência completa de espermatozoides) ou ausência completa de motilidade. Em todos os outros cenários, a interpretação é probabilística — e deve ser feita por um especialista.

O Que Pode Alterar o Espermograma?

Quando um espermograma vem alterado, a investigação precisa identificar a causa — porque muitas delas têm tratamento.

Causas frequentes e tratáveis:

Varicocele é a causa mais comum e mais tratável de infertilidade masculina. Trata-se da dilatação das veias que drenam os testículos — as mesmas varizes que afetam as pernas, mas localizadas no escroto. O acúmulo de sangue eleva a temperatura testicular e compromete a espermatogênese, afetando concentração, motilidade e morfologia simultaneamente. Está presente em cerca de 40% dos homens com infertilidade primária. O tratamento é cirúrgico (microcirurgia subinguinal) e pode melhorar o espermograma em mais de 60% dos casos.

Infecções genitais (prostatite, epididimite) causam leucospermia e podem comprometer a motilidade. Tratamento com antibióticos resolve a maioria dos casos.

Fatores de estilo de vida têm impacto direto e reversível: tabagismo, consumo excessivo de álcool, uso de esteroides anabolizantes, exposição ao calor excessivo (banheiras quentes, laptop sobre o colo, roupas muito justas), obesidade e sedentarismo. Modificar esses fatores pode melhorar significativamente os parâmetros seminais em 3 a 6 meses.

Alterações hormonais (testosterona baixa, FSH ou LH alterados) podem comprometer a produção espermática e são detectadas por exame de sangue complementar.

Causas genéticas (síndrome de Klinefelter, microdeleções do cromossomo Y) são investigadas quando há azoospermia ou oligozoospermia grave. Exigem cariótipo e testes genéticos específicos.

Criptorquidia (testículo não descido na infância, mesmo após correção cirúrgica) está associada a comprometimento da espermatogênese.

Tratamentos oncológicos (quimioterapia, radioterapia) podem causar dano testicular transitório ou permanente.

Além do Espermograma: Exames Complementares

O espermograma é o ponto de partida — mas não o único exame disponível para investigar o fator masculino.

Fragmentação do DNA espermático: avalia a integridade do material genético do espermatozoide. Pode estar elevada mesmo quando todos os parâmetros do espermograma são normais. Está indicado para casais com infertilidade sem causa aparente, homens acima de 40 anos com alterações seminais, e casais com histórico de falha de implantação ou aborto de repetição. Fragmentação elevada pode dificultar a fecundação ou resultar em embriões inviáveis.

Ultrassom testicular com Doppler: avalia estrutura e fluxo sanguíneo testicular, fundamental para diagnóstico de varicocele.

Avaliação hormonal: FSH, LH, testosterona total e livre, prolactina — solicitados quando há oligozoospermia grave ou azoospermia.

Cariótipo e genética molecular: indicados em casos de azoospermia ou oligozoospermia grave para pesquisa de alterações cromossômicas e microdeleções do cromossomo Y.

Espermocultura: solicitada quando há leucospermia para identificar agentes infecciosos.

Espermograma Alterado: Quais São as Opções?

O tratamento depende da causa identificada e da gravidade das alterações. As possibilidades vão desde mudanças de estilo de vida até reprodução assistida.

Fator masculino leve a moderado:

  • Relação sexual programada com monitoramento da ovulação

  • Inseminação intrauterina (IIU) — os espermatozoides são selecionados e concentrados em laboratório antes de serem depositados no útero

Fator masculino moderado a grave:

  • Fertilização in vitro (FIV) com ICSI — técnica em que um único espermatozoide é injetado diretamente no óvulo em laboratório. Permite gravidez mesmo com concentrações muito baixas

  • Quando há azoospermia obstrutiva, espermatozoides podem ser obtidos diretamente do epidídimo ou dos testículos (PESA, TESA, TESE, Micro-TESE) para uso na ICSI

Varicocele:

  • Microcirurgia subinguinal — pode recuperar o potencial de fertilidade em mais de 60% dos casos, possibilitando gestação espontânea ou melhorando a qualidade seminal para técnicas de reprodução assistida

Quando Fazer o Espermograma?

Não é preciso esperar meses tentando engravidar sem sucesso para investigar a fertilidade masculina. Avalie fazer o exame se:

  • O casal tenta engravidar há mais de 12 meses sem sucesso (ou mais de 6 meses se a parceira tiver acima de 35 anos)

  • Você tem histórico de varicocele, infecção genital, criptorquidia ou caxumba na adolescência

  • Fez uso de esteroides anabolizantes ou tratamento oncológico

  • Há histórico familiar de infertilidade masculina

  • Você simplesmente quer conhecer seu perfil reprodutivo antes de tentar engravidar

A investigação masculina é simples, rápida e deve acontecer em paralelo à investigação feminina — não depois.

Conclusão

O espermograma é uma fotografia da produção espermática em um momento específico. Não é uma sentença, não é uma prova de masculinidade e não define sozinho o potencial de fertilidade de um homem.

O que ele faz — muito bem — é apontar onde investigar e qual caminho seguir. Com o diagnóstico correto e o tratamento adequado, a grande maioria dos casos de fator masculino tem solução.

Se você recebeu um resultado alterado ou quer entender melhor o que seu exame revela, o próximo passo é uma consulta com um especialista em reprodução humana.

Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada.